Os que derramam e os que sugam sangue
Não encontrei entre as análises que li sobre os atentados do PCC em São Paulo alguma que procurasse entender um elemento fundamental para que os ataques pudessem ocorrer: o elemento humano. Entender a pessoa empunhando a metralhadora ou lançando a granada. Pois uma coisa é encontrar razões sociopolíticas para a megarrebelião; outra é explicar como não um, mas centenas de seres humanos empunham armas e atiram para matar outros seres humanos, deles desconhecidos, a sangue frio, de forma premeditada.
Será que todas as pessoas envolvidas nos ataques são intrinsecamente más, insensíveis, cruéis? É pouco provável, pois a prevalência desse tipo de pessoas, os chamados psicopatas, entre prisioneiros é cerca 15 a 20%. Assim, como a maldade pura explica o comportamento de no máximo um em cada cinco bandidos, forçosamente no exército arregimentado pelo PCC existem pessoas que, mesmo não sendo extremamente más, agem com extrema maldade.
Existe um efeito psicológico, chamado dissonância cognitiva, que nos leva a produzir as mais astutas racionalizações. Ele foi demonstrado cientificamente pela primeira vez num estudo publicado por Leon Festinger, do MIT, em 1957, e em linhas gerais explica por que quando nossas ações destoam de nossas crenças tendemos a mudar de crenças. Festinger pediu a dois grupos de pessoas que contassem uma mentira; para um grupo pagou vinte dólares, para o outro, um dólar. Quando posteriormente questionou os indivíduos, os que mentiram por um dólar tendiam muito mais a acreditar no que disseram, enquanto os que receberam vinte dólares tendiam a assumir a mentira. Conclusão: admitir que mentiram por apenas um dólar mostraria quão baratos eram os seus valores. Portanto, para diminuir a dissonância entre a imagem que tinham de si mesmos e a forma como se comportaram, eles passavam a acreditar no que disseram.
Esse mecanismo, nas condições propícias, permite que as pessoas se justifiquem de virtualmente qualquer coisa. Vejamos o caso da denúncia de que 283 parlamentares roubaram dinheiro da saúde pública por meio do desvio de verbas na compra de ambulâncias. Se confirmada, será que podemos concluir que um terço do Congresso é composto por pessoas de má índole? Estou certo que não.
O fato é que tanto os soldados do PCC como os parlamentares devem estar engajados num esforço de racionalização para minimizar suas dissonâncias cognitivas, permitindo-se assim cometer barbaridades sem peso na consciência. Muitos dos assassinos que atiraram contra policiais cuidam de seus filhos e não desejam para eles essa “vida de crime” na qual eles mesmos estão. Da mesma forma, muitos dos políticos ladrões são membros respeitáveis da sociedade e sinceramente desejam que a questão da saúde no país seja resolvida. Mas de alguma maneira eles conseguem justificar para si mesmos o absurdo de seus atos e acabam por acreditar que não estão cometendo nenhum despautério.
Dito isso, resta a questão: como eles conseguem se justificar diante de tanta maldade?
Com a relativização dos valores, numa época em que não há crenças em absolutos, cada um é livre para construir seu próprio código de condutas, suas próprias regras morais. Além disso, com a falência do Estado brasileiro em prover os recursos básicos para seus cidadãos, põe-se a perder o senso de coletividade, de pertencimento a um grupo maior do que nossos próprios instintos. E num mundo sem valores onde eu me encontro por minha conta e risco, conseguimos nos autojustificar até dos maiores descalabros.
Obviamente isso não desculpa ninguém. Mas não consigo deixar de me perguntar se seria tão fácil a autojustificação desses e de outros comportamentos hediondos numa realidade na qual os cidadãos fossem de fato servidos pelo Estado e existisse uma distinção mais clara entre o certo e o errado.
Escrito por Daniel às 11h28
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Arcibel x Lula
Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de assistir o filme "O Jogo de Arcibel". Trata-se de um drama argentino de Alberto Lecchi, de 2003, sobre um escritor, o Arcibel do título, preso injustamente num fictício país latino chamado Miranda, governado por um ditador. Na cadeia ele inventa o tal jogo, uma espécie de War tendo como cenário seu país, o qual disputa com seu companheiro de cela, Pablo. Quando este finalmente foge, passa a usar as táticas do jogo contra o ditador, acabando por derrubá-lo.
Quando a guerrilha está correndo solta um general do governo vai até a prisão para que Arcibel o ensine a jogar, a fim de poder enfrentar Pablo. O que me levou a escrever foi uma cena desse momento do filme: o general não entende a disparidade que encontra entre duas cartas:
1- "Tropas do governo matam civis e perdem apoio popular. Os EUA retiram o apoio - o jogador perde 1000 pontos"
2 - "Milícias da guerrilha matam civis e perdem apoio popular - o jogador perde o jogo"
O general questiona o por quê de punições tão diferentes - um só perde 1.000 pontos e o outro perde o jogo. É então que Arcibel dá uma resposta que deveria pesar na decisão de Lula disputar ou não a reeleição: "Quando quem diz que vai mudar tudo age como quem não quer mudar nada, é melhor parar de jogar."
Escrito por Daniel às 17h19
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O Estrangeiro
Nem sempre é fácil convencer as pessoas a irem ao teatro. Com os argumentos de que é caro, longe, difícil de estacionar e que nunca sabemos exatamente o que nos espera, acabamos por decidir ir a algum cinema de shopping, ver um filme que a crítica já elogiou. Embora meu desejo não seja convencer ninguém a nada, mas refletir junto sobre a cultura que nos cerca, sou forçado a revelar que todos os motivos citados estão resolvidos.
Dentro do Shopping Higienópolis, de fácil acesso e com estacionamento coberto, existe o Teatro Folha, que cobra preço de cinema para algumas de suas peças. E uma delas, não há dúvida, merece elogios.
Está em cartaz O Estrangeiro, peça de 1983 do autor americano Larry Shue. Conta a história de Charlie, um homem em crise que se refugia num chalé campestre por conselho de um amigo, mas que, cansado da vida e de tudo prefere não conversar, não se relacionar, não ter a obrigação de ser simpático – não gastar a energia necessária para a vida em sociedade, em suma. O tal amigo e ele declaram-no então ser estrangeiro e não falar uma só palavra do idioma local, permitindo-lhe ficar recluso em sua solidão. Diversas situações cômicas surgem daí, conforme as pessoas conversam diante dele sem reservas. E ele acaba por começar a interagir com os outros, revelando-se aos poucos (e apenas o que lhe convém).
A peça apresenta momentos divertidíssimos (destaque para a atriz Vera Mancini, em atuação irretocável como a dona do chalé), com diálogos espertos e uma excelente “versão brasileira” do texto.
Para além da graça, contudo, destaca-se a dinâmica de transformações dos personagens. Charlie, por exemplo, que se considera um homem sem graça, desprovido de personalidade, tem a possibilidade de se reinventar ao iniciar relacionamentos nos quais pode entrar sem a carga de sua história. Ele pode se reconstruir conforme desejar. Outros personagens, por sua vez, acabam por se desconstruir à medida que suas fachadas vão sendo reveladas. Isso tudo levanta a questão de quem somos de fato – se nos reconhecemos nos outros, e para eles podemos nos tornar alguém novo ou deixar de ser o que éramos, quem somos de fato?
Em meio a tantas risadas fica difícil sequer procurar uma resposta para tal pergunta. Mas as boas comédias são assim – fazem-nos rir ao apresentar situações engraçadas que, no fim, são a ponta de um novelo nos convidando a puxá-la para ver até onde se chega no desenrolar de nossa comédia humana.
Escrito por Daniel às 14h41
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Os “maus” selvagens
Para ler os clássicos não é preciso um motivo, nós sempre acabaremos por aproveitar algo, basta estarmos atentos. Aliás, segundo Plínio, o velho, “Nenhum livro é tão ruim que não se possa aprender nada com ele”, o que justifica não apenas a leitura dos clássicos, mas qualquer leitura. Ocorre que existe tanta coisa para ser lida e tantas outras tarefas a serem realizadas que nunca é viável ler tudo o que gostaríamos – daí porque ler os clássicos volta a ser prioritário: já que há pouco tempo, muitas vezes é melhor gastá-lo com o que já está aprovado pela história do que arriscar com alguma obra desconhecida. Claro que essa é uma postura conservadora – como no mercado de capitais, quem tem alguma sobra de dinheiro pode se arriscar em investimentos nos quais se lucrar ganhará muito, mas se perder não fará tanta falta, pois há mais dinheiro aplicado de forma segura. Com livros dá-se o mesmo – se há alguma sobra de tempo, arrisquemos em obras novas, já que haverá também tempo para os clássicos.
Tudo isso me leva a colocar os chamados clássicos contemporâneos numa categoria intermediária – como alguns fundos de renda fixa que ficam entre o investimento agressivo e o conservador. Não são absolutamente seguros como os que passaram pelo crivo dos séculos, mas não são tão arriscados como os lançamentos que mal saíram do prelo. Já têm o respaldo de um corpo crítico formado, já é possível saber que algo de bom há – isso é a “segurança” –, mas não tiveram ainda suas leituras esgotadas, há ainda coisas novas para serem vistas ali – isso é o “rendimento”.
O senhor das moscas, de William Golding, fica nessa categoria. Sua leitura garante bons resultados, não é uma perda de tempo sem chegar a ser espetacular.
Conta a história de um grupo de meninos pré-adolescentes, entre 6 e 13 anos, que sofrem um acidente aéreo e ficam isolados numa ilha, sem qualquer adulto, sem o mínimo contato com a civilização. A identificação com um romance de aventura, como A ilha do tesouro é imediata, e os próprios meninos apontam-na. No entanto, com o desenrolar da narrativa a pequena civilização construída por eles vai cedendo lugar à barbárie, à medida que a distância das regras sociais libera o lado ruim da natureza humana. No fim do livro estamos diante de cenas indizíveis de desumanidade, destruídos quaisquer resquícios da nobreza britânica original dos meninos.
Golding assim conduz a história como uma denúncia – escrito dez anos após os horrores da Segunda Grande Guerra, reflete o profundo descrédito na humanidade, que, a aceitarmos a tese do livro, terminará sempre em desgraça ao se afrouxarem as rédeas que mantém-nos civilizados.
É um livro de leitura fácil e digestão difícil. A leitura fácil leva à conclusão que numa situação daquelas tais resultados catastróficos são mesmo inevitáveis, pois o homem não presta, e fechará o livro feliz por viver em contexto tão diferente daquela ilha. Já a digestão difícil nos forçará a pensar que aquele é apenas um dos desfechos possíveis mas não é predeterminado, e que pode haver formas de detê-lo. E encerrará a obra sem ter muita certeza se nós também não construímos uma civilização frágil, que caminha para a barbárie. Daí a dificuldade de digestão: como fazer para resgatar a humanidade nos humanos?
Escrito por Daniel às 13h37
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Vai que dá tempo
Semana de Animamundi em São Paulo. Talvaz você já tenha ouvido falar desse festival, mas tendo ou não conhecimento dele, vale a pergunta: para que serve um festival de animação?
Em primeiro lugar, a animação é uma das formas de se fazer a arte do cinema, o que por si só é justificativa suficiente – trata-se de um festival de arte, no fim das contas. Mas vai além disso, e assim como o Festival de Inverno de Campos do Jordão, não só apresenta ao público o resultado final de sua arte – neste caso, os filmes –, como também traz a oportunidade para os profissionais da arte trocarem experiências, treinar pupilos, fazer escola.
Não sei se foi proposital, mas dois dos curtas exibidos na sessão de pré-estréia tratavam do tema do criador e de sua permanência na criação.
O primeiro chama-se Hora-extra (Overtime, de Oury Atlan, Thibaut Berland e Damien Ferrié, França, 2004), uma animação computadorizada em 3D, ao estilo Procurando Nemo ou Shrek, em preto-e-branco, que presta uma homenagem, algo tétrica, é verdade, a Jim Henson, criador dos famosos Muppets. Neste curta dezenas de sapos feitos de meia, como Caco, o sapo (seriam todos ele mesmo?) encontram seu criador morto em sua cama. Inconformados, põe-se a manipulá-lo como a uma marionete, dando movimento e conduzindo-o em diversas atividades corriqueiras, como a refeição, por exemplo. Não podemos deixar de perceber a inversão de papéis: quando antes era ele quem conduzia os bonecos e dava-lhes vida, agora são eles quem o conduzem, fazendo com que permaneça vivo após sua morte.
O outro filme que toca no tema é Ryan (Ryan, de Chris Landreth, Canadá, 2004), filme vencedor do Oscar de melhor curta de animação de 2005. Trata-se de um animação-documentário-ficcional, em que o diretor Chris Landreth se coloca como personagem, apresentando inicialmente algumas cicatrizes que traz em seu corpo – sinalizadas como pedaços faltando ou arranhões coloridos. Isso para nos fazer entender seu personagem principal, Ryan Larkin, que após um início de carreira brilhante como animador, influenciando as gerações que o sucederam, acabou envolvendo-se com álcool e drogas, vivendo hoje como mendigo no Canadá. Larkin é mostrado com apenas um pedaço de rosto, de onde se imagina que o que as cicatrizes arrancaram dele já é, de longe, maior do que o que lhe sobrou. No entanto, a apresentação de trechos das animações de Larkin nos mostram que ele apesar, de realmente “morto”, virtualmente sobrevive em sua obra.
Para isso serve um festival de animação. Completando treze anos de idade, o Animamundi serve para entreter e fazer pensar, pois é arte, mantém vivo os artistas de outrora e revela os novos talentos, e enterra de vez a idéia de que desenho é coisa para criança. Corre que dá tempo.
Animamundi – de 20 a 24 de julho, Memorial da América Latina.
Escrito por Daniel às 13h41
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Verdade e ficção
Batman pede CPI do mensalão em Gotham City
Batman Begins foi lançado sem muito estardalhaço, ao menos se comparado ao Batman de 16 anos atrás, quando Tim Burton ressuscitou o personagem do limbo em que tinha sido atirado pela série dos anos 60, famosa por mostrar as onomatopéias “Pow”, “Soc” nas lutas em que a dupla dinâmica combatia o mal. Ao que consta, o diretor achava ridícula a idéia de um homem fantasiado fazendo justiça nas noites de uma cidade corrupta, por isso assumiu o tom debochado e adotou um figurino que ressaltava a pouco esbelta silhueta do homem-morcego.
Restaurada a seriedade mínima necessária para levar o público ao cinema, com Batman Begins fica ainda mais fácil apresentar o personagem como plausível no mundo real. Embora ainda seja preciso exercer a “suspensão de descrença”, mecanismo pelo qual o apreciador de qualquer ficção esquece propositalmente que a obra que contempla é “de mentira” para poder desfrutar das emoções propostas (por exemplo, não choraríamos num drama se lembrássemos o tempo todo que é só um filme), no filme atual isso é facilitado pela verossimilhança. Há algo de familiar tanto na trajetória de formação de Batman como na Gotham City em que se passa ação.
Infelizmente, acredito que tal familiaridade vem de fatores negativos com os quais nos identificamos: 1 – a profunda insatisfação do jovem milionário Bruce Wayne com o sistema em que se vive, revoltando-se (de fato) contra o status quo; 2 – a efetiva corrupção que vemos assolar os três poderes na cidade, a ponto de haver uma única promotora de justiça honesta em todo o quadro de funcionários do governo (não por acaso, a protagonista); 3 – a sensação de que não há solução para o problema, a não ser destruir absolutamente tudo, matar a todos, cidadãos e governantes, e começar do zero; 4 – ainda assim, a fé de que talvez ainda seja possível reverter o estrago com trabalho duro e luta por justiça.
Talvez por nos encontrarmos num momento em que atravessamos com dificuldade uma maré tão grande de denúncias, vendo a corrupção aparecer para onde quer que nos voltemos, é que esses aspectos nos façam entender melhor a ação e o drama representados em Batman Begins – no nosso caso, não parece tratar-se de ficção.
Escrito por Daniel às 13h28
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Guerra conjugal - Porque vale a pena ver Sr. e Sra. Smith
Cinema é diversão. É arte, deve levar à reflexão, deve iluminar, expandir os horizontes. Mas pode muito bem ser visto como puro entretenimento, e nisso a indústria americana segue imbatível.
É por isso que “Sr. e Sra. Smith” é um bom filme. Porque diverte. Ponto. Não leva a alma a se elevar, não mostra o mundo pelos olhos de um artista, não traz nenhuma gratificação intelectual, mas entretém; é só o que se propõe a fazer e só o que faz.
Brad Pitt e Angelina Jolie começam o filme numa sessão de terapia de casais – vêm enfrentado crises típicas de relacionamentos que já passaram da fase inicial, estão juntos a cinco ou seis anos, e há um abismo entre eles, feito pelas “coisas sobre as quais não conversamos”, diz a Sra. Smith, “Como se chama isso?” ela pergunta ao terapeuta. “Casamento”, é sua cínica mas lúcida resposta.
O problema é que os pequenos segredos que eles escondem um do outro diz respeito à profissão excêntrica que ambos exercem: são assassinos profissionais, não sabem um da atividade do outro, e ainda por cima trabalham como concorrentes. Até que recebem uma mesma missão e acabam tendo que eliminar a concorrência, quando se descobrem começam a desenterrar uma seqüência interminável de segredos construídos na esteira dessa mentira essencial.
O filme é, portanto, ideal para levar a namorada – tem ação e violência para os homens, encontros e desencontros românticos para as mulheres e comédia para ambos. E embora tenha dito que não há qualquer estímulo intelectual na obra isso não chega a ser totalmente verdade, pois há boas piadas, e consegue-se rir em vários momentos sem que se apele ao pastelão – e fazer comédia eficiente é necessariamente fazer as pessoas pensarem (nem que seja por alguns segundos). Além disso, o filme consegue mostrar um tema batido – o desgaste dos relacionamentos por causa de competição e de insinceridades entre o casal – mas potencializa (com arsenal militar, literalmente) os conflitos conjugais e assim lhes dá uma roupagem moderna. Os clichês do gênero (ou dos gêneros que no filme aparecem misturados) permanecem, os efeitos visuais são os mesmos de tantos outros filmes de ação, mas a união inédita desses temas (presentes talvez apenas de forma semelhante no ótimo Os Incríveis) faz o filme interessante.
Deve ter sido esse excesso de modernidade que não agradou a crítica, mais afeita a filmes que não se pareçam tanto com videogames.
Escrito por Daniel às 13h36
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Incomoda muita gente
Um elefante na sala de jantar. Essa presença incômoda e bizarra, por isso mesmo intratável, é a metáfora que Gus Van Sant se utiliza para a violência latente, que explode com um massacre numa escola americana, no filme Elefante.
Criticado e elogiado, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2003, o filme é uma peça de investigação sócio-antropológica, colocando a arte a serviço da vida na tentativa (vã, talvez) de se entender como adolescentes de classe média de uma boa escola se transformam em assassinos frios espalhando terror e morte.
O diretor optou por não trabalhar com atores profissionais, elencando adolescentes típicos para os papéis principais. Essa complexidade: típicos adolescentes que não são atores atuando como adolescentes típicos, se presta muito bem ao que é o filme – o retrato de uma escola ao longo de um dia, com suas pequenas tragédias e comédias, com seus romances, seus sonhos, suas promessas e decepções. Entender como, desse caldo de cultura, surge a morte por mãos insuspeitas, é uma tarefa que apenas em parte o filme se propõe, deixando a encargo do público a montagem final do enredo.
Montagem, por sinal, primorosa, mostrando em idas e vindas o cruzamento inadvertido das pessoas. Há momentos em que temos a sensação de sermos entomologistas observando o comportamento das formigas em sua colônia, de cima enxergando como os caminhos se cruzam e prevendo o que pode acontecer.
O personagem principal é o massacre: sabemos que ele virá, mas não sabemos de onde, como, qual desfecho – e isso é como ter o tal elefante na sala de jantar.
O filme acerta ao descartar explicações fáceis: o menino que tem o pai bêbado não se torna um assassino, e nem todos os que são rejeitados enveredam para a violência. Mas arrisca quando coloca a exclusão e rejeição atrelada ao surgimento dos impulsos homicidas – tudo bem que nem todos os nerds viram matadores, mas alguns podem virar, diz o filme. Será? Além disso, arrisca também ao associar os videogames violentos aos futuros matadores – tais jogos são causa ou conseqüência da violência desses garotos? Também não se pode ter certeza.
O filme deixa, portanto, as conclusões ao encargo de quem o vê. Só é lamentável que o elefante que ele denuncia continua a incomodando pouca gente.
Escrito por Daniel às 18h56
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O psicanalista do papa
A peça Deus no Divã, em cartaz no Teatro Augusta, faz parte de um projeto chamado Beba Leite, ou algo semelhante, que arrecada leite em pó para alimentar cerca de 1600 crianças e idosos carentes. O ingresso é um pacote de leite em pó, que pode ser adquirido por menos de R$3,00 nos supermercados. E esse é um dos motivos pelos quais vale a pena ver a peça.
Não é o único.
Em cena está uma atriz no papel de Deus, que na verdade não está no psicanalista – o divã do título é metafórico – e que durante o espetáculo compartilha com a platéia questões profundas de sua existência, seus desejos para a humanidade, a dificuldade de ser soberano. Entender que, mais do que religião, mais do que dogmas, mais do que certezas, mais ainda do que sacrifícios ou rituais, o que nos aproxima de Deus é, no fim das contas, o amor – ao próximo, a Ele e a nós mesmos – é o outro motivo que compensa a visita.
Mas é só.
Não que a peça seja ruim. Mas não é um grande monólogo. A atriz, encarnando um Deus amistoso e que anseia por nos ver felizes, tem um desempenho que não salta aos olhos por sua força ou brilhantismo, embora consiga construir o personagem (que, convenhamos, não deve ser fácil, nesse caso) de forma convincente. Ou seja, não vale a pena ir só pela atuação.
Outro problema da peça é o texto. Escorrega tentando dar um foco ecumênico numa peça em que um Deus único e soberano é o personagem central – uma contradição, pois se admitimos um deus assim, só sobram as três grandes vertentes monoteístas, Cristianismo, Judaísmo e Islamismo, excluindo as outras e retirando o caráter ecumênico. Conta ainda com trechos bastante complexos, com questões teológicas envolvendo livre-arbítrio, pecado e perdão, onipotência de Deus, em certos momentos tem-se a impressão que está-se diante da leitura de um tratado filosófico, não de uma peça de teatro. Para contrabalançar esse peso, a peça alterna tais momentos com outros sensíveis, engraçados e até líricos, tornando o todo um pouco mais leve. Enfim, o texto não é, sozinho, motivo para o trabalho que dá ir ao teatro.
Mas ainda assim fiquei com a impressão que valeu a pena ter ido. Talvez porque com a ascensão de Bento 16 ao trono papal, e com a ameaça de um pontificado rígido e conservador, a lembrança dos propósitos da existência seja um exercício importante nesse momento. Na peça, Deus nos lembra que as regras religiosas foram criadas por nós, humanos, e não carregam necessariamente a essência dele. Proibições e ordenanças só terão sentido se levarem, em sua aplicação prática, ao exercício do amor ao próximo. Mas nos lembra também que, se de fato nos esforçarmos por amar o próxim, regras serão dispensáveis.
Escrito por Daniel às 10h12
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Malandragem dá um tempo
É fácil ser malandro no meio de manés.
Esse foi um dos grande choques culturais dessa viagem aos Estados Unidos. O fato de o cidadão manter o comportamento ético sem vigilância, respeitando os limites do outro, considerando o público como seu, digno de cuidado, faz com que nos deparemos com situações impensáveis para um brasileiro.
Exemplos: em São Francisco vimos diversas vezes carros conversíveis passando a noite com a capota levantada, longe de postos policiais, em ruas pouco movimentadas. Os pertences soltos no interior do veículo permaneciam intocados.
Em Alcatraz os mapas da ilha custam US$ 2,00. Ficam numa prateleira sem grades, sem vidro, sem nenhum funcionário por perto, onde há uma abertura para que se deposite o dinheiro. Quem quer “comprar” coloca os US$2,00 ali e pega o folheto.
Na maioria das lanchonetes os refrigerantes são vendidos como refil. O cliente pede um pequeno, médio, grande ou gigantesco, como é usual, e o funcionário entrega um copo vazio, que a própria pessoa enche nas máquinas disponíveis. Quantas vezes quiser. Por que alguém compraria outro se não o pequeno, que é mais barato, e que pode ser cheio à exaustão? Mas eles não pensam, ao que parece, nessa alternativa mais vantajosa.
Os exemplos poderiam se suceder por páginas, mas o espírito é o mesmo – o respeito. Respeito às leis, ao próximo, ao patrimônio. Para bem ou para mal, lei é lei.
Chega ao limite do incompreensível: no aeroporto de Nova York eu estava cuidando de nossas malas quando me deu vontade de ir ao banheiro. Se deixasse as malas sozinhas o serviço de segurança poderia confiscá-las. Estava ficando aflito quando uma funcionária sentou-se perto de mim para tomar um refrigerante. “A senhora poderia olhar por um minuto enquanto vou ao banheiro?” – era um alívio. Muito simpática ela me respondeu: “Não.” Ante ao meu espanto ela explicou que não era permitido. Muito solícita. Essa solicitude me fez ter esperança e contar o caso para ela, dizer que estava apertado, que eram cinco malas e não dava para carregar. “Sinto muito, não é permitido”. – ela entendia minha aflição, mas não era permitido. “Olha, eu vou correr ali e em trinta segundos eu volto. Se alguém vier buscar a senhora não vai deixar levar, né? A senhora diz que eu volto em 15 segundos”. Eu apelara, ia fazer de qualquer jeito e deixar a responsabilidade nas mãos dela; o que ela poderia fazer, negar? “Desculpe, mas não posso. Se eles vierem, vão levar”. Não era má vontade. Ela era irritantemente simpática e eficiente.
Serão eles tontos que não sabem tirar vantagens? Serão eles nerds que não conseguem quebrar um regra em prol da bondade?
Devem ser. Malandros somos nós. E bondosos - qualquer um olharia minhas malas por mim no Brasil, afinal, qual lei é pode ser mais importante que a simpatia? Pode ser. E quando eu voltasse do banheiro, as encontraria?
É fácil ser malandro no meio de manés. O problema é que todos somos manés de vez em quando, e nessa hora não faltam malandros ao nosso redor.
Escrito por Daniel às 11h23
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Comparem
Atendendo aos pedidos, coloco aqui duas fotos, uma do Grand Canyon e outra da Baía Esmeralda.
Agora, basta ler a o texto, comparar as fotos e discordar com mais certeza.


Escrito por Daniel às 10h34
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A paz e o assombro
Voltar foi mais fácil do que ir. Trinta dias. Quatro estados diferentes, cerca de quinze cidades. Várias lições. Número um? Os mapas são nossos amigos.
Após Las Vegas, fomos conhecer o Grand Canyon. Nunca me programara para conhecê-lo. Não estava em nenhum de meus roteiros mentais. Mas aconteceu, muito como a maior parte dessa viagem.
“A big hole.” Muitos americanos, viemos a descobrir, acham que aquele grande cânion, escavado ao longo de centenas de milhares de anos, não passa de um grande buraco. É verdade. Um enorme buraco. Assim como Ronaldinho Gaúcho não passa de um bom jogador de futebol, Ferrari não passa de uma marca de bons carros ou Machado de Assis não passa de um talentoso escritor. O espanto, a admiração, não dependem apenas do que está sendo visto, mas também, em grande parte, dependem de quem vê.
O Grand Canyon é a maior formação do gênero no mundo. Da superfície descendo em direção ao rio Colorado, que lá de cima parece um fio inocente de água embora seja um violento rio ainda, a terra expõe suas entranhas numa espécie de exibicionismo pintado de castanho em múltiplas tonalidades. Um grande buraco. Sim, mas assim como Machado, Ronaldinho ou Ferrari, esse cânion, de tão grande, transcende sua condição de “ser apenas” e sua imensidão torna-se capaz de assombrar aqueles que preservam a capacidade de serem assombrados – mesmo sendo um buraco.
Já no nosso destino seguinte, Lake Tahoe, tivemos uma outra experiência com a paisagem.
Esse lago, cujo nome indígena, tahoe, significa água nas alturas, fica localizado no alto das montanhas, alimentado apenas por neve derretida, sem rio, sem esgoto, sem córrego que drene nele. Isso faz com que ele seja quase 100% puro, e suas águas se tornam um espelho do céu. Nas regiões onde ele fica mais raso, aproximando-se das margens, seu fundo faz com que ele assuma um tom esverdeado. A única ilha do lago fica numa baía com essas características, sendo então batizada de Baía Esmeralda. Da estrada tem-se uma visão privilegiada do local, onde se construiu, portanto, um ponto de parada. Ali, contemplamos a mais bela visão dos 30 dias de viagem.
Inefável – palavra criada para definir algo que não pode ser definido em palavras – é, não por acaso, a palavra que me vem à mente. A beleza do lugar nos hipnotizou; não conseguíamos sair de lá. As montanhas cobertas de neve rodeando o lago liso azul-esverdeando, contra aquele céu azul intenso de inverno, que Drummond chamava de céu dos “dias lindos”, formava um quadro que desafiava até os mais frios a dizer: é apenas um lago. Sua transcendência não vem de sua grandeza, como no caso do Grand Canyon, mas ele deixa de ser “apenas um lago” de uma forma mais misteriosa, na combinação precisa dos elementos que o compõe, extraindo beleza da tranqüilidade que transmite e não do assombro que provoca.
Um buraco e um lago. Assombro e paz. A beleza das imagens, sem dúvida, continua a depender muito dos óculos que usamos para vê-las.
Escrito por Daniel às 22h39
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O amor ao dinheiro
Da California - Em primeiro lugar ja me desculpo pela falta de acentos e cedilha, ja que estou escrevendo de um cyber cafe americano. Nossa chegada foi em Las Vegas, onde passamos 3 dias. Aqui vao apenas algumas impressoes iniciais.
Sabe aquela sensacao de "tem alguma coisa errada" quando nos vamos ao Cinemark e nao tem refrigerante pequeno, o menor e de meio litro? Las Vegas e assim inteira. E uma imagem de riqueza e abundancia sem limites, tudo o que o dinheiro pode comprar, todos os prazeres que ele pode proporcionar, estao em escala gigantesca na cidade. Tudo e grande, tudo e exagerado. Caixas de remedio tem pelo menos 100 comprimidos, pacotes de barbeadores descartaveis nao sao encontrados com menos de 12 unidades, Listerine para bochechar voce encontra em vidros de litros. Para mim, que vivo acostumado com "small amounts", com pequenas quantidades, foi uma experiencia assustadora.
Las Vegas funciona, contudo, como um espelho desse pais. Tudo tem que ser consumido, o dinheiro precisa ser gasto para fazer a economia rodar e o pais crescer. Assim, nao se poupam esforcos para nos fazer gastar, comprar, usufruir, consumir, e de preferencia em grandes quantidades. Nessa linha, Vegas e so um dos locais onde essa tendencia chega ao seu apice.
Jogo, diversao, shows, sexo - tudo existe aqui para ser consumido mediante um pagamento, e explorar essas necessidades humanas e sempre um bom negocio desde que o mundo e mundo. Tanto que Las Vegas, que fica no estado de Nevada, recebe por ano cerca de 40 milhoes de turistas, enquanto a populacao estimado do estado inteiro e de 2 milhoes e meio de pessoas. A capital do estado, Carson City, onde tivemos o prazer de passar, e infinitamente menor que Las Vegas, e tem-se a nitida impressao que vive as expensas do dinheiro la gerado.
O amor ao dinheiro e a raiz de todos os males, disse Jesus num dos seus mais profeticos momentos. Ver Las Vegas, que e muito bonita, de fato, mas que cresce a custa de fortunas perdidas e licenciosidade, compulsao e consumismo, mostra que, se nao cuidamos de nossas paixoes, "eles" cuidam por nos.
Escrito por Daniel às 17h25
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Entre o vinho e a vida
Sideways é o azarão do Oscar. Não deve levar prêmio algum, mas é bom que esteja indicado – este ano Hollywood parece que está mais adulta, com menos filmes adolescentes e mais filmes para aqueles que sabem que cinema é arte, e, portanto, deveria gerar um mínimo de reflexão. Numa época em que a adolescência começa cada vez mais cedo e termina cada vez mais tarde, gerando até um termo “Kidults” para designar uma geração de “adultescentes”, esse é um momento bom para pensar o amadurecimento, o comprometimento, o crescimento.
Esse papel o filme desempenha bastante bem.
Logo antes de seu casamento, numa espécie de viagem de despedida de solteiro, Jack (Thomas Haden Church) é levado pelo amigo Miles Raymond (Paul Giamatti) numa jornada pelas vinícolas da Califórnia. O plano de Miles é fazer um tour de degustação de vinhos e partidas de golfe, mas desde o início Jack está pouco se importando com essas atividades, mais interessado em se “dar bem”, em suas palavras, conseguindo o maior número de envolvimentos pré-nupciais que conseguir. Isso para desespero de Miles, que ainda não conseguiu superar o fim de seu último relacionamento, há dois anos, e se mantém constantemente com o ar depressivo, fazendo o que pode para evitar qualquer envolvimento.
Do conflito de interesses dos dois surge a reflexão sobre o crescimento. Á sua maneira, ambos têm dificuldade em crescer – Jack hesita em assumir um compromisso sério, o casamento, por tudo o que esse compromisso implica: renúncia, doação, abrir mão das outras mulheres; enquanto Miles não consegue superar um amor perdido, e prefere curtir sua ressaca a seguir com a vida. Ambas posturas algo adolescentes que precisarão ser abandonadas após essa viagem.
Por trás da jornada dessa dupla está uma outra parceria que vem causando barulho, a do diretor Alexander Payne com o roteirista Jim Taylor. Seu primeiro momento de grande vulto veio com “As confissões de Schimdt”, com Jack Nicholson e Kathy Bates, ambos indicados ao Oscar. Já haviam sido indicados por melhor roteiro com “A eleição”, no entanto. Eles vêm retomando a arte de contar histórias sobre pessoas, nos fazendo pensar sobre nós mesmos ao pensar sobre elas. Em suas mãos os enredos acabam se tornando apenas uma forma de pensar sobre a vida – como fica claro num dos grandes lances em Sideways, quando Miles, ao explicar sua fascinação sobre como se cria e se cuida de uvas muito delicadas (Pinot Noir, se não me engano), acaba por descrever como o se desenvolve o próprio amor, explicando um pouco, talvez, sua dificuldade em passar a um novo relacionamento.
Por tudo isso Sideways é um filme que merece ser visto – mas apenas por aqueles que desejam embarcar numa jornada de amadurecimento, dispostos a deixar a adolescência um pouco mais para trás.
Escrito por Daniel às 13h34
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Contabilidade de amor
Ramón Sampedro era marinheiro. Jovem, forte, atlético. Rodou o mundo como mecânico de barcos – “para viajar sem dinheiro, marinheiro”, dizia ele. Até que, ao mergulhar distraidamente numa praia, quebrou o pescoço e ficou tetraplégico. Dependente de ajuda para tudo, achava que havia perdido a dignidade de viver, e agora queria morrer. Queria se matar. Queria cometer suicídio e o faria com toda certeza, se não dependesse de ajuda até para tomar um simples copo de água, com ou sem veneno. Ocorre que ninguém está disposto a ajudá-lo se houver veneno no copo.
Quase trinta anos de luta, um livro de poesias publicado, dois anos de ajuda de uma advogada resoluta, e ainda nada.
Mar adentro é o filme que conta essa história. História real. Sensação surreal.
Conduzido com maestria por Alejandro Amenábar, que vem mostrando crescente talento desde que nos assustou a todos com “Os outros”, o diretor declara que tentou “não fazer um filme pró-eutanásia”, o que consegui, ao jogar com emoções profundamente contraditórias.
Ao fim e ao cabo, trata-se de um filme sobre amor – o que é, o que não é, como trabalhar o amor, o que fazer e o que não fazer com ele. “Você diz que me ama” – diz Ramon a Rosa, uma mulher que se apaixona por ele e quer convencê-lo a viver – “mas a pessoa que me ama de fato me ajudará a morrer”. É uma contradição de termos difícil de engolir. Se amo alguém, quero o melhor para essa pessoa, e quero-a comigo, por perto, ao alcance. Se ajudo alguém a morrer, em princípio não quero o que é bom para ela. Admitamos, como concessão, que para ela o melhor é morrer. Mesmo assim, tenho que abrir mão de um pouco do meu amor, que, possessivo, quer a pessoa comigo, para então amá-la verdadeiramente. É muito complicado. E é aflitivo acompanhar essa saga ao longo do filme. Cada pessoa que entra em cena é mais alguém para sofrer ao tentar desatar esse nó Górdio.
Acabamos com a sensação que ele não se deixa amar, na verdade, nem se permite amar ninguém de fato. Pois se ele amar alguém, profundamente, a conta que vem fazendo há 28 anos se inverterá: até agora, apesar de todo carinho e cuidado da família, apesar de se importar com eles, seu sofrimento com sua condição é ainda maior, o que faz com que a dor de deixá-los seja menor do que a dor de existir. Ao se apaixonar, ao amar mais intensamente, a dor da perda superaria a de continuar vivendo, e ele teria que abrir mão de seu projeto e, em nome desse amor, continuar a suportar o fardo de sua deficiência – e isso ele não está disposto a fazer, é melhor não amar.
O tempo todo Ramon pede que não o julguem. Nega também que fale em nome dos tetraplégicos: “quem está falando em tetraplégicos? Estou falando de mim!” – brada ele.
Não o julguemos, portanto. Nem genaralizemos qualquer situação. Para nós, basta refazer nossas contas, e calcular se temos amado o bastante para fazer valer a dor de nossa própria existência.
Escrito por Daniel às 00h44
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